Eu sei, eu sei. Típica cantada, pouco criativa e muito comum em comédias românticas. Sempre me pergunto se na vida real isso dá certo. De uma coisa eu sei, em Timbó não funcionaria. Sabe aquelas cidadezinhas pequenas onde quase todo mundo se conhece? Mesmo os forasteiros, depois de um ano de ‘casa’ já podem se considerar introduzidos com sucesso no cenário. Aliás, é bem comum as pessoas se conhecerem por sobrenome, por exemplo: “Você viu a Maria? Filha dos Stanlalau? Aquela, que é neta do Bilulu!” (sobrenomes fictícios, contenham os risos, por favor.)

Então é fácil imaginar a reação de uma timboense diante do tal “Vem cá, te conheço de algum lugar?” Ela provavelmente franziria o cenho, se concentraria ao máximo e durante os próximos longos e silenciosos minutos tentaria desvendar o mistério. Pensando se cursou o segundo grau na mesma escola que você (já que só existem umas três), ou se você era cliente da lan house onde ela trabalhava (só existe uma), ou quem sabe se esbarraram em alguma festa naquela boate (naquela, porque realmente só existe uma na cidade)? Poxa de onde esse cara me conhece?

Entenderam a situação agora? Hihi!

Hoje no final da tarde, céu cinza escuro, a chuva ameaçando chegar… Entra um cliente e na metade do ‘Boa tarde’ eu já estava com o letreiro luminoso acesso nos meus pensamentos: ‘Conheço de algum lugar!’ Era um senhor de idade bastante simpático. Começamos a conversar sobre mil e uma coisas. Nem sei como o assunto começou, mas, ele me contou sobre as duas filhas, uma que mora na Espanha, outra em Brasília. Me contou histórias de tantas viagens que fez. Falamos até sobre política, inflação e a real utilidade (inexistente) de um celular com quatro slots para chip.

Alguém tão falador como eu, pensei comigo. Mas quem, de onde e como o conheço? Diante de tudo que ele me contou, calculo que ele tem no mínimo uns 90 anos (ou mais).

De repente ele comenta que foi professor de história durante 30 anos. Professor, meu professor de história? Repasso mentalmente todos os professores de história que conheci. Não, eu lembraria… E então ele completa a frase de onde meus pensamentos o haviam interrompido, contando que depois disso foi bibliotecário na biblioteca pública de Timbó. Ahá! Aí está. Sabia que conhecia!

A biblioteca municipal de Timbó. Onde passei tantas e tantas tardes fazendo trabalhos escolares… Onde entre tantas coleções Barsa pesquisei os mais diferentes assuntos, tirei vários xerox, copiei textos inteiros a caneta! Imediatamente lembrei-me daquelas tardes, lembrei da presença dele e de tantas vezes que ele me ajudou a encontrar um volume especifico – ou ainda, alcançá-lo já que eu era ainda mais baixinha na versão kids -, lembrei dos livros, lembrei dos trabalhos…

Bateu uma saudade desses tempos, bons tempos, onde um lugar cheio de prateleiras continha as respostas para todas minhas perguntas. Não aguentei cinco segundos até contar para o homem que o conhecia de lá. E ele me respondeu com toda calma e naturalidade do mundo: “Sim, eu lembro de você menininha. Uma princesa, hoje uma rainha.”

Juro que ele falou isso. E confesso que fiquei atordoada e literalmente sem palavras, ao invés de agradecer apenas sorri, o que às vezes é a mesma coisa, né? Velhinhos aceitam rainhas de cabelo azul? Gostei. Ainda mais porque não tinha nenhuma maldade na resposta. Depois de mais um bom tempo de conversa, ele (infelizmente) foi embora, já estava chovendo. Eu fiquei sozinha e pensando sobre como é legal reencontrar pessoas – tipo, 14 anos depois – que não faziam diferença na época e saber que hoje elas significam tanto, simplesmente por serem testemunhas de suas melhores lembranças.

Um viva às bibliotecas da nossa vida.