O dia em que encontrei El dorado.

Publicado em janeiro 19, 2012

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Não exatamente a cidade toda construída em ouro maciço descrita nas antigas lendas indígenas. Isso seria sorte demais para uma quinta-feira… Mas, sim El dorado, um bairro de Palhoça que até então eu desconhecia a localização ou até mesmo a existência. Como eu fui parar lá é a pergunta que não quer calar, já que o lugar além de longe não faz parte do meu trajeto diário.

Tudo começou hoje cedinho. Estou viciada em um chá maravilhoso, chá verde com abacaxi. Sério, é muito bom! Então, eu bem feliz preparei uma garrafinha de chá para levar pro trabalho e tomar bem feliz por lá também. Sim, eu estava de muito bom humor. Normalmente não sou dessas pessoas que preparam chás felizes para beber no trabalho. Então. Lá estava eu no ponto de ônibus, eu e minha garrafinha de chá verde com abacaxi. Eu estava tão bem humorada que – pasmem – comecei a puxar papo com uma tia que também estava esperando ônibus.

Conversamos sobre a chuva, sobre o sol, sobre saúde e por fim sobre horários de ônibus. Descobri que ela esperava o mesmo ônibus, “Palhoça – Florianópolis”, que estava alguns minutos atrasados. Na real pra chegar ao meu trabalho eu posso pegar praticamente qualquer ônibus que no final conste Florianópolis, pois todos passam por São José. Por exemplo: “Guarda – Florianópolis”, “Barra – Florianópolis” e… Ah, vocês entenderam. Depois de algum tempo eu já estava começando a ficar preocupada com o horário, era certo que eu ia me atrasar. Cadê o bendito Palhoça bus? Tomei um gole do meu chá.

E para minha alegria com o auxilio dos meus óclinhos novos eu pude ler a certa distância: Palhoça. Obã! Fiz sinalzinho, o ônibus parou, entrei e entreguei meu passe. Quando o ônibus já estava em movimento percebi que a tia não tinha entrado. Engraçado, ela me disse que estava esperando o mesmo ônibus… Como de costume fui até quase o final do ônibus e escolhi um banco vazio, sentei ao lado da janela. Na verdade tinha poucas pessoas no ônibus. Coloquei meus fones de ouvido. Abri a primeira página do livro. Esse aqui por acaso:

Lá pelas tantas da leitura percebi que o ônibus entrou em uma rua desconhecida. Fechei o livro para averiguar a situação. Já aconteceu inúmeras outras vezes de eu pegar as mesmas linhas em horários diferentes, onde elas seguem rotas totalmente diferentes para chegar no mesmo lugar. E eu fico feliz como se tivesse ganhado uma rifa, porque adoro ficar olhando pela janela empoeirada esses lugares novos e desconhecidos… Sério. Mesmo que seja a rua mais feia e sem graça, adoro me sentir desbravando um novo m² que eu não conhecia. Coisas de Elis.

E o ônibus seguiu. Atravessou a BR. Entrou em mais mil ruas, dobrou esquinas, passou por pontes. E eu lá com a certeza de que eu nunca havia passado por ali. (Levem em consideração que tenho memória de elefante.) Aos pouco as pessoas foram descendo. E notei que no máximo duas ou três pessoas entraram depois do meu ponto. Começaram a surgir nomes peculiares nos estabelecimentos locais, como: Farmácia El dorado. Oficina El dorado. Bar e mercearia El dorado. E agora? Constatei que meu kit de mineração havia ficado em casa. E eu ali, em El dorado.

“Bom, com certeza ele vai terminar a rota aqui e seguir para Florianópolis. Tudo acaba em Floripa sempre.” Pensei comigo, o jeito era aproveitar o resto do passeio. Aquela altura do passeio havia somente dois passageiros no ônibus. E o ônibus parecia se embrenhar mais e mais na selvagem El dorado. Em certo momento vi algo lindo pela janela… Meio afastado em um pasto 4 cavalos cavalgando juntos com a luz do sol nascente dando aquele brilhinho bonito sabe? Fiquei emocionada. Confesso que me senti em algum tipo de safári especial por terras desconhecidas. Pena que não deu tempo de tirar uma foto.

E foi depois disso que a penúltima passageira do ônibus desceu. Por algum motivo ela me deu tchau. Repare que toda história se desenrola de um jeito quase sobrenatural. Como eu pude não perceber os sinais tão óbvios? Então percebi que o motorista e o cobrador estavam conversando e rindo de uma forma, digamos, empolgada demais. Na certa os caras não tinham me visto, o que é compreensível. Sabe aqueles bancos do fundão mais altos nos ônibus? Eu estava sentada atrás desses, lembrando os meus 1,63m não é difícil imaginar porque não faziam conhecimento da minha presença. De qualquer forma, fiquei feliz por ter meus fones de ouvido, e no momento estar ouvindo Billie Jean (graças a menor aprendiz Tati, praticamente filha do Rei do pop) e não conseguir distinguir o assunto da conversa suspeita dos dois tios. Eu era a ultima passageira.

Depois de dobrar algumas esquinas acabamos em uma estrada de barro batido. O ônibus parou na beiradinha. O motor desligou. Opa! Tem realmente alguma coisa errada por aqui. Será que eu estava sendo sequestrada? Se fosse o caso, com certeza eu tinha um pai desconhecido e milionário que seria chantageado financeiramente em troca da minha vida. Mas onde eu ficaria até o acordo se firmar entre as partes?

Tirei os fones a tempo de ouvir o motorista falando:
“Será que é seguro deixar o ônibus aqui?”
“Acho que sim, mas vamos deixar trancado também.”

Nisso a porta da frente se abriu e ambos iam se levantando quando para espanto geral eu me ergui por detrás do tal banco mais alto, meio que em… Desespero:

“Esse ônibus não vai para São José?!”

Durante alguns longos segundos, ambos ficaram boquiaberto me encarando como se eu fosse algum tipo de piada sem graça e de mau gosto.

“Você não disse que o ônibus estava vazio?” Perguntou o motorista, parecendo se sentir meio enganado.
“Eu perguntei se tinha alguém ainda no ônibus!” Disse o cobrador me encarando de modo acusador.

“Desculpe, eu estava com fones no ouvido. Não ouvi nada.” Tentei me defender.

Ficamos os três se olhando de forma espantada e inesperada por mais algum tempo.

“Moça é que essa linha termina aqui. O ônibus não vai adiante.”
“Mas esse não é o Palhoça -Florianópolis?”
“Não, esse é o Palhoça – Unisul.”

Estava explicado. Logo cedo, no ponto de ônibus, na minha ânsia de não me atrasar eu provavelmente estava tão preocupada na espera do Palhoça – Florianópolis que quando vi a primeira palavra não me importei muito em conferir a segunda, que se tratava do destino. E dessa forma consegui pegar o ÚNICO ônibus que não passa em São José. É mole?

Quero a minha mãe...

Fiquei em silêncio. Queria me xingar. Queria xingar a tia do ponto que me viu entrar no ônibus errado. Queria xingar a família de cavalos felizes que não precisavam passar por esse tipo de coisa logo cedo. Mas isso não iria melhorar em nada a situação. Só me restava uma saída… O jeito era tentar a sorte.

“É que eu estou morando aqui há uma semana… Ainda não sei direito as rotas dos ônibus e acho que acabei me confundindo. Eu trabalho em São José e acho que quando vi o Palhoça pensei que fosse a linha que vai para lá…”
“De onde você é?” Perguntou o cobrador.
“De Timbó.”
“De onde?!”

“Perto de Blumenau, sabe…”
“Onde tem a Ocktober?” Perguntaram os dois em coro.
“Isso aí.”

Era uma situação no mínimo constrangedora.
“Certo, vamos te deixar no ponto mais próximo para você pegar um ônibus para São José.”

Era a melhor saída, melhor que ficar ilhada sozinha naquela rua nem um pouco hospitaleira. No trajeto até o tal ponto, ainda sentada nos fundos pude ouvir risinhos e cochichos na parte dianteira do ônibus. Bom saber quando a gente traz alegria pra vida das pessoas né? Eu e meu chá na seriedade total. (Na real eu estava rindo sozinha e pensando: “Cara, como eu consigo me meter sempre nessas situações?!”)

O ônibus para outra vez. Mas as portas não se abrem. O cobrador tira o celular do bolso e faz uma ligação. Por um breve momento volto a por em questão a teoria do sequestro, estariam prestes a começar as negociações? Aparentemente não. Ouvi umas três ligações com frases similares: “Tais dirigindo dentro de El dorado?” “Já fosse para São José?” “Qual horário sua próxima rota pela Unisul?”

O cobrador era um cara bacana, afinal. Sem qualquer obrigação estava tentando descobrir se tinha algum ônibus por perto para me resgatar. A parte ruim é que… Não, não havia. Então ele ligou direto para o terminal e até onde as informações nos levavam a crer, havia uma linha passando por ali em 10 minutos. Ufa! Nesse tempo todo eu me senti como uma criança, ouvindo os pais decidindo sobre o seu futuro… Ninguém pedia minha opinião, ninguém me falava nada. Eu apenas ouvia e esperava.

“Bom, tem uma linha pra ela pegar daqui há 10 minutos.”
“Já deve estar chegando então.”

Então as portas se abriram, os caras saíram e mesmo sem ninguém me dirigir a palavra eu entendi como óbvio sinal para que eu saísse também. Lá fora vi o ponto de ônibus, do ladinho. Mais uma vez me desculpei pelo engano. Pra quebrar o gelo confessei que Timbó tinha apenas uma linha de ônibus (o que é bem verdade) e para mim era novidade esse risco de se perder. Ambos caíram na gargalhada. Faz parte. E quando eu ia dando tchau o cobrador falou:

“Ah, vamos ficar esperando pra te por no ônibus pra você não precisar pagar outra passagem.”

Juro que fiquei emocionada. Mesmo tendo um bloco cheio de passes dentro da bolsa, agradeci com um sorriso. Porque poxa, que gentileza inesperada! Afinal, imagina se eu realmente não tivesse outro passe e estivesse ali perdida? Depois de toda confusão, devo admitir que os tiozinhos estavam se comportando como verdadeiros cavalheiros. E eu fiquei feliz por isso.

Em seguida descobri que apesar do nome tão rico, o bairro e especificamente aquela região era altamente, humm, perigosa. Não era nada correto deixar uma mocinha do interior como eu ali sozinha. Então quase no ultimo minuto de espera o cobrador me contou que também era um forasteiro de terras distantes. E de fato, já havia passado por situações similarmente atordoantes.

É engraçado e estranho, se a gente soubesse que alguém tão diferente que se senta ao nosso lado já passou pelas mesmas coisas que nós… Será que veríamos essa pessoa de um jeito diferente? Será que perceberíamos que no fim, somos todos humanos, entre achados e perdidos… Uns no começo outros no fim, todos em uma jornada?

O ônibus chegou – dessa vez, o certo – e eu agradeci mais uma vez. Soltei mais dez sorrisos de gratidão. Entrei no ônibus sem pagar outra passagem, eu e o meu chá. Seguimos rumo à São José. Sem ouro na mochila, mas com histórias – de mocinhas perdidas e heróis que não querem recompensas – para contar… E é isso que importa né?

(Sem contar que enquanto escrevia esse post contando sobre minhas “aventuras” para vocês, possivelmente o motorista e o cobrador descreviam as mesmas cenas entre gargalhadas para suas famílias! Hihi!)

E Billie Jean sempre me lembrara El dorado… lol

Publicado em: Abobe-se