Querida, mamãe chegou! (Parte II)

Publicado em janeiro 15, 2012

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A primeira coisa que a minha mãe me disse depois de um abraço de boas vindas foi: “Eu já estava desesperada. Perdida aqui, achei que você não ia chegar nunca!” Olhei para os lados e comecei a rir, afinal a rodoviária de Florianópolis não é nada assim… Monstruosa. Mas, ri pouco. Lembrei da primeira vez que cheguei para um treinamento na filial da Colombo de Floripa. Lembrei do medo de me perder, do medo de ser sequestrada por alienígenas, do medo de não encontrar o caminho de volta… As coisas mudam heim?

No caminho de casa rolou toda aquela conversa sobre a viagem, sobre as recentes mudanças climáticas, fofocas sobre os vizinhos de Timbó, novidades sobre a nova ponte construída, perguntas sobre meu emprego, minha casa e espanto quanto aos meus cabelos (que segundo minha mãe estão mais longos a cada dia que passa). Chegamos e antes de eu dar qualquer sinal ou indicação minha mãe soltou: “Sua porta só pode ser essa daqui!! Com o gatinho!!”

Toc, Toc.

Entramos e minha mãe teve o primeiro choque quando viu isso:

Não podemos culpá-la, apesar de que ela sempre soube que eu sou perdida por livros, quando eu morava com ela meus livros se resumiam a isso:

É uma grande diferença do antes e depois ne? “Você gosta mesmo de ler heim.” Foi tudo que ela falou depois que se recuperou do choque inicial. Enquanto eu guardava as coisas da minha mãe no quarto ouvi ela meio que falando baixinho pra si mesma: “Noite dos… mor.. mortos vivos?!! Meu deus!” É, ela havia encontrado meus filmes, voltei correndo antes que ela encontrasse Walking dead nos seriados.

“Mãe, quando foi a ultima vez que você foi a um shopping?”
“Ah, faz muito tempo.”
“Tá, mas foi quando?”
“Ah… Eu não lembro direito quando.”
“Mais ou menos?”
“Ah, eu era solteira.”

Dessa vez quem ficou em choque fui eu. Tá, eu melhor que ninguém sei que em Timbó não tem nem mini shopping… Mas, caramba, fazia MUITO tempo. Não pensei duas vezes antes de por meu plano em ação. Levei a velha pro shopping. E chegando lá qual a minha abobação ao descobrir que ela tem simplesmente TERROR de escadas rolantes? Sério. Tive que pegar pela mão pra fazer ela subir em uma (pra descer foi pior ainda). E o pior é que eu tinha que me segurar para não rir diante do óbvio temor da minha mãe de ser engolida pela esteira.

Levei ela em uma livraria que adoro e enquanto eu ‘caçava’ alguns títulos minha mãe conferia a seção de Bíblias. Algumas coisas não mudam mesmo. Tomamos café no meu cantinho de ler e escrever, pela primeira vez sem ler ou escrever. Passeamos por algumas lojas. E para jantar eu escolhi um sushi bar. Como eu bem sabia minha mãe nunca havia comido sushi antes e para minha surpresa não houve muita relutância. Ao menos, até certo momento onde deixei escapar que ela degustava parte do corpo de algum saboroso siri cru. Faz parte.

Em seguida comprei ingressos para o cinema! Dona Teresa não se esforçou nem por um minuto em mostrar empolgação com o fato de assistir uma animação. Na real ela parecia bastante envergonhada na fila da seção. Haha! Mas, já sentadinha em nossas poltronas e servidas de pipoca e coca-cola zero, quando eu menos esperei, ela já estava rindo mais até do que algumas crianças presentes! Porque alguns adultos se comportam como se fosse um crime assistir um desenho? Rir de algo bobo? Ah é tão bom! Quando ficar velhinha vou assistir ainda mais animações, e furando a fila de compra de ingressos ainda por cima. E assim sobrevivi ao primeiro dia com minha mãe. Minha mãe que nunca sequer dorme fora de casa, sobreviveu ao primeiro dia em outra cidade…

No dia seguinte quando meu celular despertou, minha mãe já estava acordada fazendo café! Saí para trabalhar cedinho e passei o dia num misto de preocupação e curiosidade sobre o que minha mãe estaria fazendo… E o celular dela estava fora de área o tempo todo. Cheguei em casa a noite e a primeira coisa que vi ao abrir a porta foi uma bíblia cor-de-rosa em cima dos meus livros na estante. Respirei fundo. Contei até 10. Suspirei. Ok… Mamãe está em casa. Então descobri que minha mãe tinha feito mil coisas durante o dia.

Primeiro ela descobriu um encanador para arrumar a saída de água da minha lavadora que até então estava precariamente funcionando numa maracutaia obra minha. Depois ela foi a feira e comprou quase um caixote de verduras e legumes. Em seguida saiu para caminhar e dar umas voltinhas pela cidade. Desconfio que a mulher tem um sinalizador no corpo, porque com a maior facilidade achou a igreja dela. Inclusive onde fez inúmeros amiguinhos. E para minha alegria, toda a minha roupa estava limpa e passada. Cara, eu não lembrava quando foi a ultima vez que minha mãe tinha lavado minha roupa! Mesmo quando dividíamos o mesmo teto, isso sempre foi minha responsabilidade.

Sem contar que a janta estava feita. Aquele cheirinho de comida pronta, comida de casa! Não tem preço. Eu já nem sabia o que era chegar do trabalho e encontrar comida prontinha à espera. Foi bom demais largar a bolsa, tirar os sapatos e sentar à mesa (sem 156510365020 coisas minhas pro cima dela) e jantar com a minha mãe. Falar sobre o dia, sobre o trabalho, sobre o tempo…

Na noite seguinte quando cheguei minha mãe estava parada, com olhar mega concentrado de frente para a porta da geladeira. A porta aberta, diante da minha mãe se mantinha em silêncio completo.
- Mas o que é todos esses temperos?
- Ah mãe, eu gosto de comida bem temperada. (Só se for a comprada. lol)
- Não gosto de pimenta, deixa tudo muito forte…
- Isso é porque você não sabe a quantidade certa, a hora certa de usar e com o que misturar né mãe. Não é bem assim, sair usando sem saber como e onde.

Nesse momento lancei para a minha mãe um olhar de chef ofendido com algum comentário sobre o andamento do seu molho e fui deixar minhas coisas no quarto. Quando voltei descobri que minha mãe já havia feito amizade com os vizinhos do lado. Sabia coisas que eu sequer suspeitava sobre a vida do casal (eu nem sabia que era um casal até então). Nesse dia fechamos a noite assistindo Simplesmente amor. Um dos meus filmes preferidos, minha mãe não conhecia e pela quantidade de gargalhadas, tenho certeza que adorou.

Na quarta-feira era aniversário da véia. Comprei de presente um celular novo e aproveitei pra incluir um chip da Tim 48 (meus créditos agradecem). Foi bem legal porque entreguei o embrulho e enquanto ela abria liguei para o celular que já estava com o chip ativado. Quando o pacote começou a vibrar e cantarolar por pouco minha mãe não o jogou pela janela! Assistimos Melhor é impossível. Sério, eu casaria com o Jack Nicholson. Bebemos café e conversamos até bem tarde… Dormi com barulhinho de chuva e com o coração alegre.

No dia seguinte já no trabalho meu celular toca. Era minha mãe querendo saber o que eu queria jantar… Fiquei atordoada. Esse é o tipo de coisa que não me acontece com muita frequência, para não dizer nunca. Escolhi o prato favorito entre as receitas da mamis. Hummmmm… Lasanha! Passei o dia causando inveja entre a galera sobre meu jantar. E por pouco não causei o movimento de uma caravana em direção a Palhoça em busca da mística lasanha caseira de Sauron, que vale comentar estava de-li-ci-o-sa! Depois disso saímos para caminhar a pedido da minha mãe, estava bem fresquinho e foi bastante agradável. Era a ultima noite da minha mãe aqui e quando voltamos ela fez um inventário da geladeira. Sérissimo.

Nesses potinhos tem feijão congelado. Nesse potinho tem molho com frango. Ali no canto tem pepino já descascado, só temperar. Naquela tigela deixei sopa de legumes. E no forno tem pão caseiro.” Acho que meu plano perfeito de “cozinha em uso” não colou como deveria.

Na manhã seguinte levei minha mãe para a rodoviária, e por causa do transito quase que ela perde o horário. Só deu tempo de ela comprar a passagem enquanto eu pedia para o motorista esperar um minutinho. Um abraço rapidinho, mas apertado… Melhor assim, vai que eu não deixava mais ela ir embora né?

É bom saber que a gente pode contar de verdade com pelo menos uma pessoa nesse mundo.

Publicado em: Abobe-se